22 de ago. de 2026

Revoltas estudantis na Índia e comparações com o Brasil

Publicado originalmente no Jornal da USP em 22/7/26


Dezenas de milhares de jovens saem às ruas da Índia contra fraudes no exame nacional de admissão para os cursos de medicina que afetou mais de dois milhões de candidatos. O que começou como uma legítima queixa contra o vazamento de provas e gabaritos rapidamente se transformou em uma revolta ampla contra o sistema educacional, o desemprego juvenil e o sufocamento econômico das famílias.

O cenário guarda paralelos com os desafios educacionais vividos no Brasil, já que ambos os países compartilham o drama de uma juventude que investe tempo e recursos na educação, mas esbarra em sistemas de ensino mercantilizados e mercados de trabalho altamente disfuncionais. As demandas indianas exigem transparência imediata nos exames, punição rigorosa a fraudadores e o congelamento de taxas abusivas em universidades públicas, somando-se à histórica e complexa discussão sobre as ações afirmativas.

Na Índia, as cotas são baseadas em castas e comunidades indígenas e originárias marginalizadas, gerando debates intensos entre estudantes de grupos historicamente discriminados, que lutam para manter o acesso, enquanto os não beneficiados protestam devido à concorrência extrema, agravada pela falta de vagas públicas. No Brasil, o sistema de cotas evoluiu para um modelo misto com critérios sociais e raciais que ampliou a inclusão, embora ambos os países ainda enfrentem a necessidade urgente de expansão da infraestrutura estatal para absorver a enorme demanda da população.

Ao analisar a estrutura educacional das duas nações em números arredondados, os contrastes desenham o tamanho do desafio. O Brasil apresenta uma rede de ensino superior visivelmente mais privatizada, com cerca de 80% das matrículas na rede particular, enquanto na Índia esse índice é de 56%. Outra diferença crucial reside na gratuidade: as universidades públicas brasileiras são totalmente gratuitas por lei, ao passo que as instituições públicas indianas são pagas e cobram taxas e anuidades dos estudantes. Essa cobrança pesa severamente sobre o orçamento familiar.

Enquanto o Brasil tem uma renda per capita pelo critério de paridade de poder de compra equivalente a US$ 24 mil, a Índia registra a metade, cerca de US$ 13 mil, fazendo com que as taxas públicas indianas comprometam até 15% dos rendimentos médios e empurrem as famílias para o endividamento. Surge então um paradoxo econômico fundamental: embora a distribuição de renda medida pelo Índice de Gini na Índia (25,5 em 2022 segundo o Banco Mundial) seja estatisticamente muito melhor do que a brasileira (52 em 2023 pela mesma fonte), o baixo patamar da renda média indiana torna a situação real de acesso e permanência na faculdade equivalentemente difícil. A desigualdade brasileira exclui pela concentração extrema de renda no topo, enquanto o cenário indiano nivela a maior parte da população em uma faixa que não consegue arcar com os custos do mercado privado.

Com uma taxa de matrícula de jovens no ensino superior de 43% no Brasil contra apenas 30% na Índia, o gargalo indiano deixa 7 em cada 10 jovens fora da faculdade, gerando uma competição desumana que mercantiliza o ensino através de cursinhos caros. Na atualidade, a quebra da promessa de que o diploma traria ascensão social alimenta o desemprego juvenil e a informalidade nos dois países, unindo as juventudes do Brasil e da Índia na mesma urgência por um futuro digno.

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