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23 de dez de 1990

A pior distribuição de renda do mundo. Até quando?

 
Publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 22/12/1990 e reproduzido no Jornal de Brasília

Uma das piores distorções do modelo econômico brasileiro – se não a pior, na medida que é geradora de outras – é a concentração de renda. Se no início dos 80 já havíamos batido o recorde de pior distribuição de renda do mundo, de lá para cá conseguimos superar nossa própria marca nessa triste competição.
Nos países do Leste europeu e no URSS os 10% bem aquinhoados são entre 3 e 7 vezes mais ricos que os 10% mais pobres. Nos países industrializados ocidentais, EUA e Reino Unido inclusive, países que os liberais brasileiros fingem tomar como paradigmas, aquela relação varia entre 5 e pouco mais do que 10. Os tigres asiáticos também não são muito selvagens: Japão, Hong-Kong, Coréia e Taiwan apresentam distribuições tais que em nenhum deles os 10 % mais ricos são mais do que 15 vezes mais ricos que os 10% mais pobres (no Japão essa relação é de cerca de 6 vezes). Nos países subdesenvolvidos da Ásia, essa relação varia entre 10 e 40, o mesmo acontecendo na África, com exceção da África do sul e de sua região de influencia onde esse fator chega a cerca de 60 vezes. Na América do sul, excluindo o Brasil, é no Peru que a renda se mostra mais concentrada, onde os 10% mais ricos chegam a ser cerca de 50 vezes mais ricos: aqui os 10 % mais ricos ganham cerca de 90 vezes mais do os 10% mais pobres!
Em 1965, essa relação era de 28 vezes; daí até 1976, o crescimento econômico médio do país foi de 6,1% ao ano em termos per capita. Nesse período, os 10% mais ricos tiveram um aumento médio anual de renda de 7,8%, enquanto para os mais pobres sobraram as migalhas: um aumento médio anual de renda de 1,3% apenas. Assim, em 1976 a relação riqueza/pobreza já chegava a um fator 50. De 1976 a 1989 o Brasil cresceu pouco, 1,5% ao ano em média em termos per capita, sendo que os 10% mais ricos aumentaram sua renda na taxa de 1,8% ao ano e os 10% mais pobres perderam em média 2% ao ano. Assim chegamos ao nosso perverso recorde atual.
As consequências se manifestam integralmente nos nossos indicadores sociais. Em uma escala de zero a cem, orientada do pior para o melhor e dependendo da posição relativa do Brasil entre os demais países, nossas notas seriam: 65 no que diz respeito à produção econômica per capita: 55 no que diz respeito à expectativa de vida: 49 em mortalidade infantil, 49 em suprimento calórico; 45 em imunização infantil contra sarampo. Em educação escolar nossas notas são ainda piores: 38 no que diz respeito à escolarização de segundo grau e apenas 5 no que diz respeito a evasão escolar no primeiro grau. Tudo isso porque nossa nota em distribuição de renda é zero.
Há uma série de fatores que comprometem a distribuição de renda entre a população, como o regime econômico, a dualidade rural/urbano ou as desigualdades regionais. Entretanto, um fator muito importante é a heterogeneidade na escolarização da população. A renda média daqueles cuja escolaridade é maior ou igual a 5 anos é des vezes superior à renda média daqueles que têm menos do que aquela escolaridade. Considerando apenas a população com escolaridade superior a 5 anos, os 10% mais ricos são cerca de 20 vezes mais bem aquinhoados que os 10% mais pobres. Este seria ainda um mau resultado quando comparado com outros países, entretanto, muito menos vergonhoso que a nossa performance atual.
A correlação entre má distribuição de renda e heterogeneidade escolar pode ser observada comparando-se os diversos países. Países cuja escolaridade da população é heterogênea apresentam má distribuição de renda e vice-versa. No Brasil, trabalhadores com baixas escolaridades têm, em geral, baixas rendas; crianças e jovens dependentes de famílias de baixa renda abandonam prematuramente a escola e virão a ter, no futuro, baixas rendas. Esse é um mecanismo perverso que projeta no futuro a atual desigualdade na distribuição de renda. Caso seja mantido o descaso para com a educação pública continuaremos sendo os recordistas imbatíveis em concentração de renda e apresentando indicadores sociais que envergonhariam países com rendas per capita bem inferiores à nossa.
(Fontes: “Anuários Estatísticos do IBGE”, 1980 1987, 1988, 1989; “Les Inegalités de Revenus”, C Morrisson, Presse Universitaire de France, Paris, 1986; “Relatório Sobre o Desenvolvimento Mundial”, Banco Mundial, Fundação Getúlio Vargas, 1989; “Situação Mundial da Infância”, Unicef, 1990; “Anuário Estatístico”, Unesco, 1982).

Um comentário:

  1. Muito bom o artigo Mestre Otaviano, mas e hoje como anda essa distribuição de renda. Agradeço por nos trazer essas informações e aguardo ansioso por sua palestra no IFSP de Caraguatatuba, pois sou aluno de Licenciatura em Matemática e estou bastante interessado em saber sobre os dados da educação brasileira nos últimos anos!

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