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8 de abr de 2015

A barbárie também é educacional

A barbárie também é educacional
Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil, versão eletrônica, em 7/4/2015

Dez dos 11 países com piores indicadores educacionais, estão na África, ao sul do Saara (o Afeganistão é o único não africano). O principal componente da barbárie é a educacional. Sem a educacional, as outras formas da barbárie não de instalariam em um país.

A barbárie está instalada, há longo tempo, em muitos países. Indicadores como renda per capita, expectativa de vida e mortalidade infantil, epidemias e taxas de prevalência de doenças endêmicas, guerras internas e externas e exploração de recursos naturais por empresas mais poderosas que os próprios países onde estão instaladas, são alguns indicadores que servem para identificar os países vítimas da barbárie, a maioria deles, mas não todos, na África subsaariana.

Como não poderia deixar de ser, aqueles países apresentam, também, indicadores escolares péssimos, compatíveis com os demais indicadores econômicos e sociais. A barbárie também é educacional. Ou, pior: a principal componente da barbárie é a educacional. Sem a educacional, as outras formas da barbárie não de instalariam em um país. Vejamos quão ruins são esses indicadores educacionais e quais são suas consequências?

Dez dos 11 países com piores indicadores educacionais, estão na África, ao sul do Saara (o Afeganistão é o único não africano). Nove deles são ex-colônias francesas e um, Libéria, criação e ex-colônia dos EUA. Esses dez países africanos (Benin, Burkina Faso, Chade, Costa do Marfim, Guiné, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger e República Centro Africana) aparecem hachurados no mapa, juntamente com o Afeganistão. Mais da metade das pessoas com 15 anos ou mais nesses países á analfabeta! Mas, antes de analisarmos mais detalhadamente os indicadores educacionais, vamos lembrar outros aspectos da barbárie.

Em muitos desses países, a taxa de mortalidade infantil supera – às vezes em muito – os 10%. Para comparação, no Brasil, país que apenas está em uma situação intermediária, é da ordem de 2% e nos países mais desenvolvidos, abaixo de 0,5%. Em resumo, crianças com menos do que um ano morrem, naqueles países, a uma taxa cinco ou mais vezes maior do que no Brasil e 20 vezes maior do que nos países mais avançados.

A renda per capita nos países mais vitimados pela barbárie é inimaginavelmente baixa. Por exemplo, a renda de todo um ano de um liberiano permite comprar aquilo que um estadunidense compra em 4 dias. Em outras palavras, se um liberiano médio deixar de comer, de se deslocar de um lado para outro, de usar eletricidade etc., enfim, se não realizar nenhum gasto monetário, precisaria esperar todo um ano para juntar uma quantidade de dinheiro suficiente para comprar, por exemplo, uma geladeira ao preço que elas são vendidas aqui.

Esses países não são conhecidos no Brasil por sua cultura, folclore, língua, gastronomia, paisagens etc., mas, sim, pela pobreza de seus povos, ou pelas epidemias de ebola, como a Libéria ou a Guiné. Outros são conhecidos pelos diamantes de sangue, que custaram pescoços, orelhas, dedos e vidas nos países de origem e hoje adornam pescoços, orelhas e dedos de grã-finas em muitos países. Em alguns desses países, em cada 4 ou 5 pessoas, o número médio de pessoas em uma família brasileira típica, uma tem aids (no Brasil, uma em cada 300 e nos países mais avançados, uma em cada mil).

Voltemos à educação. O mapa mostra as taxas de analfabetismo entre as pessoas de 15 a 24 anos nos diversos países. Os tons de cinza, do mais claro para o mais escuro, correspondem a taxas de analfabetismo superiores a 15%, de 2% a 15%, 0,75% a 2%, 0,1 a 0,7% e menos do que 0,1% (em branco, estão países sem informações suficientes nos sítios da UNESCO). Os 11 países citados estão hachurados no mapa; além de terem taxas de analfabetismo na faixa etária dos 15 aos 24 anos extremamente altas, têm taxas de analfabetismo de adultos superiores a 50%. Em alguns casos, a taxa de analfabetismo entre adolescentes e jovens adultos também supera os 50%.

Como vemos, aqueles dez países africanos formam um conjunto geográfico contínuo, ele mesmo cercado por outros países pobres e sem infraestrutura, com indicadores educacionais menos péssimos, mas também péssimos: não há, portanto, nem sequer para onde correr.

Esses países conseguirão romper as barreiras da barbárie? Que perspectivas podem ter as pessoas que vivem em países como aqueles?

Migração ou roubo de cérebros?

A migração talvez pudesse ser uma resposta pessoal para a última pergunta: atravessar desertos, romper fronteiras e tentar atravessar o Mediterrâneo, ainda que correndo o risco de morrer no caminho ou acabar em algum campo de prisão de estrangeiros ilegais, talvez seja melhor do que continuar a se submeter a uma vida de privação e sofrimento. Mas, soluções para uns, problemas para outros. Quem migra não é o analfabeto ou o miserável, mas, sim, aquele que conta com recursos financeiros para chegar até o país de destino e tem um nível de formação escolar que lhe permite se integrar de forma minimamente necessária no país de destino. Por exemplo, dos migrantes com 25 anos ou mais dos países da parte ocidental da África e que se dirigiram a países da OECD, mais do que a metade tinha pelo menos o ensino médio completo[1], proporção muito maior do que a que se encontra nos países de origem. Ou seja, a migração piora ainda mais a situação dos países de origem, onde ficam os menos escolarizados. E, claro, os países mais ricos, acabam por privilegiar a migração de pessoas mais escolarizadas. Assim, normas que privilegiam a migração de engenheiros, médicos, técnicos, matemáticos, cientistas etc. são muito comuns, ao mesmo tempo em que são colocadas barreiras que dificultam a migração dos mais pobres e menos escolarizados, entre as quais a necessidade de preencher formulários – barreira instransponível para um analfabeto que não possa contar com auxílio – é das menores.

Um triste exemplo
O Níger oferece um triste exemplo da dimensão que pode assumir a barbárie educacional. Quase a metade dos 18 milhões de nigerenses tem menos do que 15 anos de idade sendo, portanto, altamente demandantes de educação escolar. A outra metade é majoritariamente analfabeta: de cada 6 pessoas com 15 anos ou mais no Níger, apenas uma é alfabetizada. Portanto, qualquer esforço educacional que mobilizasse parte das pessoas alfabetizadas para a tarefa de educar pressionaria, de forma intolerável, outras atividades essenciais do país e que também dependem de pessoas escolarizadas. O gráfico de barras ilustra como se distribui a população no Níger bem como, para fins de comparação, no Brasil e na França. A proporção entre pessoas demandantes de educação escolar no Níger em relação à quantidade de pessoas entre as quais se poderia arregimentar educadores é assustadora. Evidentemente, países como o Níger, entre vários outros, não têm como escapar da barbárie educacional, pois não tem como escolarizar seus jovens e alfabetizar ainda que uma pequena parte de seus analfabetos.
A ajuda internacional ajuda?


Alguém poderia sugerir que os programas de ajuda internacional seriam uma solução. Mas o impacto deles é muitíssimo limitado quando comparado com as necessidades. Por exemplo, apenas aqueles países africanos citados têm perto de cem milhões de habitantes e a população demandante de educação é da ordem de 50 milhões de pessoas. Para atender à necessidade educacional dessas pessoas, crianças em sua maioria, seriam necessários perto de cinco milhões de trabalhadores na educação, número várias ordens de magnitude maior do que qualquer tipo de ação internacional conseguiria arregimentar. Apenas para comparação, segundo a página eletrônica de uma das maiores organizações internacionais de ajuda, Médicos Sem Fronteiras (consultada em janeiro de 2015), essa entidade, embora conte com cerca de 30 mil trabalhadores, 90% deles são pessoas arregimentadas nos próprios países ajudados; portanto, a ajuda externa contribui apenas com cerca de 3 mil pessoas. Comparando-se com a necessidade educacional apenas daqueles poucos países, aqueles 5 milhões de trabalhadores citados, convencemo-nos da total impossibilidade de esperar que esse tipo de ajuda internacional, na quantidade e na forma que ocorre hoje, possa ser uma maneira de enfrentar a barbárie educacional dos países mais pobres.


Do ponto de vista da ajuda financeira, ocorre o mesmo tipo de limitação. As ajudas internacionais destinadas aos países mais pobres são, segundo o Banco Mundial[2], da ordem de 50 dólares por ano e por habitante. Entretanto, apenas um vigésimo desse valor corresponde à ajudas educacionais[3]. Quando combinamos essas informações com a população escolar a ser atendida, supondo que as ajudas se concentrem apenas nos níveis iniciais de ensino, concluímos que elas equivalem a cerca de 50 centavos de dólar por mês e por criança ou jovem na idade escolar, valor totalmente insuficiente sequer para arranhar a superfície do problema.

Assim, na atual realidade da relação entre os países, o enfrentamento dos problemas escolares depende exclusivamente dos esforços que cada um deles pode fazer, o que deixa muitos países totalmente sem saída.


Temos algo a aprender

Algumas lições podem ser tiradas da situação de barbárie educacional que assola muitos países, como os dez países africanos citados e o Afeganistão. Uma delas é que aqueles países não sairão dela sem uma ajuda internacional muito maior e muito mais desinteressada, que coloque educação, saúde e infraestrutura em primeiro lugar, abandonando todo e qualquer interesse militar, econômico e geopolítico. Como esse tipo de ajuda não existe, aqueles países continuarão amargando a barbárie educacional e todas as outras para as quais ela abre as portas.

Uma segunda lição é que os países que ocupam situações menos dramáticas quanto aos indicadores educacionais devem fugir da barbárie com todas as suas forças, pois há riscos reais de nela cair. Etiópia, Gâmbia, Haiti, Madagascar, Paquistão, República Democrática do Congo, Camarões, Ruanda, Senegal e Zâmbia, países com altas taxas de analfabetismo entre adultos e que têm reduzido muito lentamente o analfabetismo entre adolescentes e jovens adultos, talvez sejam alguns exemplos.

Mais uma lição: em muitos países, há grandes regiões nas quais os indicadores educacionais se comparam com os daqueles países analisados. Embora os indicadores educacionais brasileiros estejam bastante distantes daqueles dos países mais vitimados pela barbárie, vastas regiões nos interiores de alguns estados têm indicadores educacionais comparáveis àqueles encontrados nos países mais atrasados do mundo; portanto, há situações de barbáries no país e enfrentá-las é absolutamente fundamental.

Caso não haja uma mudança qualitativa na história dos países, das relações internacionais e da forma em que elas ocorrem, as condições que levaram alguns países à barbárie educacional e os impedem de dela sair, permanecerão.


[1]United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division, World Migration in Figures,http://www.oecd.org/els/mig/World-Migration-in-Figures.pdf

[2]http://data.worldbank.org/topic/aid-effectiveness, consultado em março de 2015,

[3]Heyneman, Stephen P. “Foreign Aid to Education: Recent U.S. Initiatives Background, Risks, and Prospects” Peabody Journal of Education, Vol. 80, No. 1, pp. 107-119, acessível em http://www.vanderbilt.edu/peabody/heyneman/PUBLICATIONS/Foreign%20Aid%20to%20Education.pdf



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