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9 de nov de 2009

A expansão dos cursos sequenciais é benéfica ao sistema educacional?

A expansão dos cursos sequenciais é benéfica ao sistema educacional? NÃO
Folha de S. Paulo, 13 julho 2002, em coautoria com Osvaldo Coggiola
Este é um antigo artigo, publicado na seção Tendências e Debates da Folha, respondendo - negativamente - a questão acima colocada.
Na época, tendo em vista a não suficiente expansão do ensino superior público, o que ainda ocorre hoje, muitas pessoas passaram a defender os "cursos sequenciais" - cursos feitos após a conclusão do ensino médio, de curta duração considerados de nível superior mas não de graduação,. Tais cursos eram/são superficiais e insuficientes para formar alguém: na melhor das hipóteses, seriam apenas treinamento. A proposta de cursos sequenciais fez o mesmo papel atualmente feito pelo EaD e, como ocorre hoje, muitas pessoas acreditavam nela, pois não faziam uma análise mais profunda de seu significado, e outros a defendiam, pois pretendiam tirar proveito financeiro desse tipo de curso.
A nossa resposta àquela pergunta foi "não". Como é usual naquele jornal, havia uma resposta "sim" para a questão.

Para responder a questão proposta, é necessário um diagnóstico, ainda que breve. O ensino no Brasil é um dos piores da América do Sul, em todos os níveis.
Segundo dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), o nível de alfabetização dos adultos no Brasil é o mais baixo da América Latina, empatado com a Bolívia, em 83%. Em recente comparação internacional feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), sobre o nível de aprendizado de jovens de 15 anos, o Brasil ficou em último lugar nas três categorias (compreensão da escrita, matemática e ciências), apresentando ainda o sistema escolar mais desigual e a mais baixa taxa de alunos com bom desempenho.
Conforme dados da Unesco, o ensino secundário no Brasil e na Venezuela tem as mais baixas taxas de engajamento (razão entre número de matrículas e população na faixa etária correspondente) com idade correta (respectivamente 19,5% e 19,2%). Finalmente, no ensino superior da América do Sul, apenas Guiana, Paraguai e Suriname possuem taxas de cobertura inferiores à brasileira.
Para que o Brasil igualasse as taxas de Chile, Uruguai, Venezuela e Argentina, por exemplo, precisaríamos ter entre duas e três vezes mais estudantes no ensino superior.
A situação no Estado de São Paulo não é significativamente diferente da brasileira e a diferença a favor de São Paulo está muito aquém do que seria de esperar, se considerarmos as diferenças econômicas entre os Estados, em particular a renda per capita.
O Brasil é um dos países que apresentam o maior nível de privatização do ensino superior em todo o mundo. Em São Paulo, a situação é ainda mais grave do que a indicada pela média nacional: temos 420 habitantes para cada estudante de nível superior no sistema público, contra 190 nos demais Estados.
De que tipo de ensino precisamos? A resposta, baseada no diagnóstico, é simples: ensino público em maior quantidade, de melhor qualidade e menos desigual. No que diz respeito ao ensino superior, há ainda enorme espaço para a expansão do ensino de graduação usual, aquele que todos os países têm adotado, que corresponde a cursos de graduação de quatro ou cinco anos, e não cursos sequenciais curtos.
A proposta de cursos sequenciais visa dar um paliativo à necessária expansão do ensino superior público, o único que garante patamares mínimos de qualidade. Sob o pretexto de tornar a formação superior para o "mercado de trabalho" mais rápida e mais barata (e de combater a evasão), na verdade se propõe a substituição da formação por um simples treinamento, que a veloz mudança científica e tecnológica tornaria rapidamente obsoleto. A instituição educacional deixaria de ser responsável por uma formação integral, com centro nas bases científicas do curso escolhido, o que permite a atualização posterior do formando -única formação que merece o nome de universitária.
A inundação do mercado com diplomas desqualificados tornaria, obviamente, mais barata a mão-de-obra especializada ou com formação superior. Mas o que seria um grande negócio para as empresas (em especial para aquelas universidades privadas, que fariam plenamente jus à sua alcunha de "fábricas de diplomas") seria um péssimo negócio para o Brasil e para a população trabalhadora.
O crescimento eventual da parcela da população com formação superior seria apenas a máscara da desqualificação. O país abriria mão de uma alavanca fundamental para projetar e expandir seu futuro, e a sua formação científica ficaria nas mãos de uma elite cada vez mais restrita, socialmente selecionada (o que acontece já desde os primeiros níveis do ensino básico), acrescentando mais um elemento de desigualdade num país que já possui um dos maiores índices do planeta na matéria.
O atual grave conflito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, motivado pela falta de professores, por salas superlotadas e consequente baixa qualidade didática, demonstra que a universidade pública está faltando com seu dever. O que se deve expandir é o ensino superior público, gratuito, laico, de qualidade, socialmente referenciado, ou seja, integral. Essa é a única expansão universitária que abre uma perspectiva para a nossa e as futuras gerações.



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